Antes de me alongar no relato partilho convosco um texto, da autoria da minha mulher, e que recebi durante a jornada abaixo. Está demasiado bom para ficar apenas guardado no meu e-mail… E não, não são metáforas, existe mesmo um palhaço a viver na cozinha desde a última vez que fui aos chocos a Setúbal (talvez há uns 3 meses) … E acho que ela não viu ainda a amostra que descansa pacificamente em cima de uma moldura na parede…


À mulher do pescador (desportivo)

 Já que gostas da literatura de pesca toma lá este texto:

Antes de ti já ela existia. Antes de ti já ela o fazia suspirar. Antes de ti era ela que lhe tirava o sono e lhe levava uma percentagem considerável do ordenado. A pesca chega quase sempre antes da mulher do pescador. Não somos as primeiras. Sem ressentimentos, mas somos as segundas e não lhes peçam para escolher: eles escolher-nos-iam a nós. Acreditem que sim. Mas a situação seria dolorosa para ambos. Ninguém quereria passar pela experiência de abstinência piscatória. A harmonia do casamento perder-se-ia. Acreditem mais vale partilhá-los e aceitar a bigamia. Muitas vezes interrogamos: no namoro não era assim porque é que ele se ausenta mais agora? Gosta menos de mim? Bem… quero acreditar que não! Faz parte. Da mesma forma que na fase do enamoramento fazemos mais vezes a depilação ou apostamos mais na lingerie. Aceitemos esta evidência. Mas vamos lá, sejamos sinceras, ser mulher de um pescador é uma vida de cedências e incompreensões (agora em forma de lista e dirigida a todas as iniciantes):

– As amostras passam a fazer parte da decoração. Aquele peixe com anzol pode passar meses em cima daquele frasco decorativo na cozinha. Não tentes movê-lo porque ele volta. Espera que ele volte à pesca do choco para que aquela amostra seja necessária. Mas este é um mal excecional. O pescador é organizado. Extremamente cuidadoso e limpo. Refiro-me obviamente ao material da pesca.

– Nem sempre ele volta para casa com peixe. Seja ele responsável e serão mais as vezes que retorna a casa sem escama e estranhamente Feliz do que o contrário. Pesca não é sinónimo de refeição de peixe. Não tentes explicar isto às tuas amigas porque elas não vão perceber.

– Por falar em amigas, elas também não vão perceber que o pescador não cheira a peixe e não suja a casa de areia. Se tentares explicar podes receber como resposta: mas então como sabes que ele foi à pesca? DRAMA!! Ignora, por favor, ignora. Pensa que nenhuma mulher irá olhar para o teu marido naquele fato de neoprene e as sereias não existem. Tranquilo. E mesmo que haja mulheres a pescar essas estão longe. Eles não gostam de sentir a respiração de ninguém na pesca.

– Não perguntes se a pesca correu bem. É estúpido. Corre sempre bem. Nem desejes boa pesca. O pescador é supersticioso e isso dá azar.

– Não deites caixas de plástico fora sem antes perguntares: precisas para a pesca? Ah e tenta não usurpar as caixas dele… Tenta. Nem sempre é possível. Cobiça só, diz-lhe que são giras. Um dia serão tuas para guardares tralha.

– O frigorífico tem duas gavetas, não tem? Reserva uma para os legumes. A outra é dele. E não abras. Existem animais vivos nela.

 – Sobre o dinheiro. Ok, não falemos nisso.

– A decathlon. A melhor invenção do século. Parabéns ao seu fundador. Podes ir ver ténis e roupa desportiva – que dá bastante jeito para limpar a casa – enquanto ele vai observar amostras, canas e afins. Quando terminares as tuas coisas e fores ter com ele não lhe digas “já tens tralha demais, vamos!”. Não tem. Ele tem falta daquela amostra, entendes? Não é igual a nenhuma das outras, mesmo que as outras sejam 65.

– Na altura de comprar casa procura uma com arrecadação, garagem e não ponhas lá nada teu. Aquela é a sua segunda casa. Acredito que no dia que se divorciem ele não vai para a casa da mãe vai para lá ou… para a pesca.

 A mulher do pescador tem então de aceitar. Não sei se algum dia vou perceber mas esforço me. O melhor é só aceitar. É que este amor – o deles pela pesca – é para sempre. É de meter inveja, não é?

 Cláudia Candeias


 Em relação à jornada propriamente dita, resolvi afastar-me das confusões de verão…. Demasiados pescadores sazonais, demasiada confusão para mim, como ela disse e bem não gosto de sentir a respiração no pescoço, não consigo ver peixes sem medida a serem enfiados dentro de baldes e sacos enquanto o companheiro do lado aplaude e festeja como se de um troféu se tratasse, não gosto de tropeçar em lixo que deixam nas praias…

 A pesca foi feita a solo, gosto de pescar acompanhado, gosto da amena cavaqueira que estas jornadas proporcionam com boa companhia, gosto dos festejos em conjunto quando se dá com o peixe… Mas gosto igualmente de pescar sozinho…. Estar ali apenas por estar…. Mais peixe menos peixe não vai fazer qualquer diferença no ânimo de apenas estar ali…

 Foi uma jornada em que fiz alguns quilómetros pela praia… Lançamento atrás de lançamento e em todos com a esperança de sentir aquela descarga de adrenalina…. Passaram 10, 20, 30, 40 minutos e nada de nada… Nem sinal de peixe, nem vivalma à vista…. Estava como queria…

 Ao fim de 1 hora a percorrer o areal eis que surge o primeiro sinal de vida… Um toque e… nada… Não ficou! Vejo as horas e com a motivação renovada, continuei a lançar, lançar, lançar…

 O mar estava difícil… uma maré tão grande e a correr muito, as ondas a exigirem que os sets fossem bem calculados ou as amostras iam e vinham sem sequer trabalharem…

 Foram precisas 3 horas de insistência para chegar a recompensa… Lançamento e a meio caminho uma paragem em seco… Nem deu tempo de pensar já que a cana vergou completamente e o drag do carreto cumpria com aquilo a que estava obrigado… Aguentei 2 arranques brutais do peixe… Fecho o drag ainda mais do que já estava e ainda assim os 2 arranques seguintes levaram mais uns bons metros de fio… Começo a senti-lo a ceder, estava na hora de o aproximar de mim e esperar que viesse bem cravado ou não passaria por aquelas ondas (já apanhei pescas de inverno mais calmas) … Na rebentação voltou a arrancar mar adentro…. Foi o suspiro final… Com calma, e completamente às escuras, fui controlando o peixe apenas com a ondulação… Espera, puxa, espera e puxa…. Senti que o peixe estava praticamente em seco e com a linha sempre tensa fui-me aproximando da margem… E lá estava ele aos saltos já sem hipótese de voltar para a água. Grip na boca e dali já não saia… O mesmo grip que este meses e meses parado por ter ferrugem e que foi “bricolado” no fim de semana… Merecia depois de tudo o que já carregou!!!

Cada peixe é motivo de festejo… Não pelo tamanho em si, apesar de ser um bom peixe, mas por ser mais um fruto da minha teimosia, ou insistência como lhe queiramos chamar…. Festejei sozinho ali no meio de nada e sem ninguém à volta… Mas festejei também em conjunto… Fotos tiradas e enviadas aos companheiros do costume… Primeiro logo ao meu pai como é da praxe e em seguida aos Ricardos, Nuno e Gualter…

 Um bom exemplar, uma autêntica bola de tão gordo que estava…

 Não lancei mais…. Prendi a amostra na asa de cesto do carreto e o peixe foi no grip enquanto caminhei a caminho do carro… Nem valia a pena colocá-lo na corda…. Estava satisfeito…. Aquilo a que ia estava concretizado… O vicio nesta pesca é a procura…. Procurei e encontrei…. Dar com outro era apenas para fazer número e peso… E sinceramente, não é isso que me motiva…

 Cana: Shimano Technium SP  9´10″ 14-56g

 Carreto: Daiwa Ballistic EX 3000H

 Multi: Spiderwire Smooth 8 0,14mm

 Leader: Varivas Shock Leader 20lb

Pode seguir os artigos e relatos do Pedro Dionísio aqui ou no seu blog, Bons Lances.

1 Comentário

  1. Avatar
    30 Maio, 2018
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    Gostaria de dar a conhecer minha experiencia nos Açores, visitem meu site 🙂 https://panpanvinovino.wordpress.com/2017/11/15/pan-pan-vino-vino-a-paixao-pela-pesca-desportiva/

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